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ROBERT HOOKE   (1635 - 1703)


Durante toda a Idade Média, a explicação usual do Universo baseava-se nas teorias aristotélicas, segundo as quais a Terra ocuparia o seu centro, envolvida, como uma cebola, por esferas concêntricas de raios crescentes. A última esfera era chamada Primum Mobile (Primeiro Motor), a morada dos deuses. Estes emprestavam-lhe movimento, cabendo ao Primeiro Motor, por sua vez, impelir a esfera interior seguinte, que moveria a outra, e assim por diante, até resultar no movimento celeste e de todo o universo, já que a Terra permanecia fixa em seu centro.

A persistência de certezas assim tão gratuitas pode hoje parecer chocante. Com efeito, mais de um milênio se passou sem que o ocidente trouxesse alguma contribuição que melhorasse o conhecimento do universo. As próprias limitações econômicas do mundo medieval podem explicar um pouco este fato, pois uma sociedade predominantemente rural e ainda bastante fechada sobre si própria não poderia estimular os grandes raciocínios revolucionários e buscar respostas para as grandes dúvidas. Porém vieram primeiro as Cruzadas e, mais tarde, o Renascimento, fatores que de uma forma ou de outra viriam a abrir as portas do ocidente para o resto do mundo. Ressurgiram o grande comércio e as manufaturas, o que viria a fornecer a base econômica para o esforço científico.

Assim, o espírito da livre indagação começou a surgir por todos os países mais adiantados, como Itália, França e Inglaterra, questionando as explicações quase mitológicas existentes até então. Este pensamento começou no plano religioso com a Reforma protestante, e logo atingiria o plano da ciência. Já em 1543, por exemplo, Nicolau Copérnico em De Revolutionibus Orbium, retirava a Terra do centro do universo.

Foi nessa época de novos horizontes intelectuais e de grande desenvolvimento da cultura que Robert Hooke viveu. Com seu espírito científico apurado e uma mente aberta à aceitação de novos métodos que favoreciam o conhecimento, Hooke era o típico cientista experimental. Considerava a experiência como a melhor forma de abordar os fenômenos naturais, a única maneira de se conhecer a natureza e o comportamento dos corpos.

Robert Hooke nasceu em 18 de julho de 1635, em Fresh Water, na ilha de Wight, Inglaterra, onde seu pai era sacristão da paróquia local. Hooke sempre sofreu com uma saúde frágil e durante toda a sua vida teve problemas com isto. Quando criança sofreu de sinusite e bronquite; mais tarde tinha enxaquecas, má digestão, insônia e, quando conseguia dormir, pesadelos.

Desde cedo, o garoto doentio mostrou um interesse especial por modelos mecânicos e pelo desenho. Ainda menino tornou-se aprendiz de Sir Peter Leiy, o artista da corte real. Porém, o cheiro das tintas a óleo provocava dores de cabeça que o acompanharam por toda a vida, e ele foi forçado a interromper o aprendizado. Embora tivesse abandonado logo o estúdio, Hooke revelou-se posteriormente um excelente desenhista, como atestam seus trabalhos em arquitetura e os desenhos de seus instrumentos e das observações que fazia.

Desistindo da pintura, ele passou a estudar em Westminster, onde adquiriu um razoável domínio do latim e do grego. Durante esse tempo, morava na casa do Dr. Busby, reitor da escola, que lhe dedicou grande amizade e constituiu-se em incentivador constante de sua carreira.

Com dezoito anos o cientista ingressou na Universidade de Oxford. Porém, vindo de família humilde e não tendo recursos para se manter, foi obrigado a aceitar uma série de empregos humildes, inclusive trabalhar no refeitório da escola, o que, aos olhos da sociedade da época, era considerado depreciativo. Até que um dia foi trabalhar como assistente de Robert Boyle. Começava, então, a carreira científica de Robert Hooke.

Sua habilidade para construir aparelhos mecânicos foi o que fez com que aparecesse este convite e também a ocupar o cargo de "administrador das experiências" na Royal Society, a mais importante sociedade científica inglesa. Ao longo de toda a sua vida, porém, seus contemporâneos o descreveram como briguento, anti-social e provocador de polêmicas. Sua paixão em participar de debates ferrenhos especialmente contra Newton, sua vítima favorita, também passaria à história juntamente com seu trabalho.

Na casa de Boyle sempre se reunia um grupo de jovens brilhantes que se dedicavam ao mais novo campo de estudo: a ciência experimental. Hooke fez-se muito amigo de Christopher Wren e principalmente de Boyle, o que, para um jovem inglês de origem modesta, era providencial: Boyle era um homem de meios e de posição social destacada, sendo o 14º filho do Duque de Cork.

Por volta de 1658 Hooke construiu para Robert Boyle a bomba de ar que o permitiu enunciar sua famosa lei: "À temperatura constante, a pressão de uma dada quantidade de ar varia na medida inversa de seu volume". Segundo a opinião de alguns historiadores, a Lei de Boyle deveria se chamar Lei de Hooke.

A bomba de ar elaborada por Hooke foi seguramente o primeiro engenho deste tipo construído na Inglaterra, e talvez no mundo. O próprio Hooke escreveu: "Eu desenvolvi e aperfeiçoei uma bomba pneumática a partir de projetos que foram enviados do continente para o honorável Robert Boyle. Se tais projetos fossem seguidos em seu original, a bomba seria tão grosseira e rudimentar que não teria grande utilidade nos nossos estudos".

Aliás, este foi um dos casos de perda, por Hooke, da paternidade de seus inventos. De sua bomba de ar, por exemplo, Denis Papin, que também era assistente de Boyle, inventou a panela de pressão e a válvula de segurança que era sua parte essencial, ganhando os benefícios da invenção.

Hooke, por sua vez, viu na panela de pressão a grande possibilidade de transmitir energia mecânica a longas distâncias, produzindo o vácuo necessário à transmissão a partir da condensação do vapor. Contudo, somente no fim da vida é que ele entraria em contato com Thomas Newcomen, ferreiro de Dartmouth, que também estava trabalhando nesse assunto. Na primeira década do século XVIII, por ocasião da morte de Hooke, Newcomen registrou a sua máquina a vapor, primeiro engenho eficiente na conversão em larga escala do calor em energia mecânica. É provável que Hooke nem tenha visto o resultado de seu trabalho.

Ainda trabalhando para Boyle, em 1661 Hooke fez sua primeira publicação, sendo uma tentativa de explicação dos fenômenos observados numa experiência publicada por Robert Boyle, que tratava de problemas de tensão superficial dos líquidos e do fluxo de líquidos em tubos capilares. Mas logo em seguida, numa atitude característica, mudou totalmente de tema.

Até então os relógios portáteis tinham um controle rudimentar e, por isso, o melhor dos aparelhos sempre apresentava um erro de pelo menos um quarto de hora por dia. Robert Hooke, agora interessado em astronomia, vinha pesquisando um meio de conseguir um relógio que pudesse comandar um telescópio, permitindo-lhe, desta forma, fazer observações a horas precisas.

Hooke então estudou o comportamento das molas, descobrindo inicialmente que um corpo preso a uma mola espiral, ao receber a ação de uma força, passa a oscilar com períodos de tempo sempre iguais, não importando a amplitude do movimento. Essa descoberta levaria posteriormente à utilização de molas espirais em relógios, permitindo não só a eliminação dos pêndulos, até então obrigatórios, mas também o aumento da precisão desses instrumentos.

Em 1665 o cientista publicou sua Micrographia, livro que o consagraria nos meios científicos da Inglaterra e do continente, colocando-o no mesmo plano de Leeuwenhoek, Malpighi e Nehemiah Grew, precursores dos estudos microscópios em Biologia.

Neste livro há um bom exemplo do ecletismo de Hooke. Ele faz, entre outras coisas, a descrição do primeiro microscópio feito de partes móveis, composto de uma lente objetiva hemisférica e uma grande ocular plano-convexa, da qual se utilizava apenas o centro. As sessenta ilustrações de objetos microscópicos que realizou provam a excelência do aparelho e o gênio de seu inventor. Elas registram um grande número de descobertas fundamentais, como a descrição do olho da mosca caseira, da metamorfose da larva do mosquito e da estrutura das penas das aves.

Foi quando estudava a cortiça que Hooke usou pela primeira vez na história da ciência a palavra célula, com o mesmo significado biológico adotado atualmente; descrevia as pequenas celas vazias encontradas no material, formadas pelas paredes das células mortas da casca do sobreiro.

Ainda na Micrographia, o cientista descreve outros instrumentos originais, em diversos ramos da ciência, como o primeiro refratômetro para líquidos, o primeiro barômetro de leitura direta, um termômetro a álcool e os detalhes para a construção de um higrômetro. Também sugere a necessidade de se convencionar como o zero da escala de temperaturas o ponto de congelamento da água.

Sua obra também inclui algumas questões de astronomia, como as anotações sobre o efeito de refração da luz de outros corpos celestes na atmosfera terrestre e experimentos para demonstrar sua teoria sobre a formação das crateras lunares. Soltando algumas pequenas esferas de ferro sobre uma camada de cinza e observando as bolhas que se formavam na superfície do chumbo fervente, Hooke comparou as formas observadas com o relevo lunar e deduziu duas teorias que permanecem até hoje, sobre a origem das crateras: bombardeio de meteoritos e erupção vulcânica.

A Grande Peste de 1665 e o Grande Incêndio de 1666, que destruiu grande parte de Londres, foram dois problemas práticos cuja solução contou com a participação ativa de Hooke. Por suas qualidades técnicas como organizador e arquiteto, foi nomeado, junto com Christopher Wren, supervisor da reconstrução da cidade. Apresentou à Royal Society um plano de reconstrução que seguia um traçado geométrico semelhante ao adotado, mais tarde, em Nova York e Washington. Ainda hoje podem ser observadas mansões e igrejas idealizadas por ele. Graças a este posto, pela primeira vez na vida Hooke viveu aliviado de suas preocupações financeiras.

Em 1676 Hooke editou sua "Descrição de Helioscópios" e, nos anos seguintes, "Luzes e Cometas". Apresentou um novo projeto de telescópio móvel sobre o arco de um quadrante, desta vez, porém, comandado por um relógio, o que permitiria observar o Sol e outros astros nas suas posições relativas durante a rotação da Terra. Para maior mobilidade do aparelho, criou uma peça chamada junta universal ou junta de Hooke, da mais variada utilização hoje em dia. Este telescópio só seria construído setenta anos mais tarde, na França.

Em 1678 Hooke deduziu a lei física até hoje conhecida como Lei de Hooke, segundo a qual a força que faz uma mola, ou qualquer sistema elástico, retornar à sua posição de equilíbrio é proporcional ao afastamento em relação a essa posição.

Em 1674 Hooke havia publicado seus princípios, afirmando que todos os corpos celestes possuem uma atração gravitacional na direção de seu centro e que todos os corpos sempre se movem em linha reta, exceto quando alguma força age lateralmente sobre eles. Também mostrara que a ação gravitacional diminui com a distância, conforme uma lei que ainda desconhecia.

Newton, independentemente, chegara às mesmas conclusões, porém não publicou uma linha a respeito, nem comentou nada com ninguém. Durante a correspondência entre os dois cientistas, Hooke escreveu a Newton em 1680, indagando sua opinião sobre a forma das órbitas dos planetas, caso fosse verdade que a atração gravitacional é inversamente proporcional ao quadrado das distâncias. Porém, não obteve resposta, pois a relação entre ambos estava estremecida por uma questão anterior, sobre a paternidade de algumas conclusões sobre a gravidade. 

Entretanto, Newton dedicou-se à questão e acabou elaborando os cálculos que revolucionariam a Física e resolveriam o grande problema da compreensão do sistema solar. Como sempre, Hooke estava próximo das grandes questões: tivera a visão geral do problema, mas não fora suficientemente profundo para resolvê-lo inteiramente.

Quando, seis anos depois, Newton publicou seu Principia, Hooke constatou que o livro continha uma explicação do sistema solar baseada nos princípios que ele próprio assinalara em 1674. Entretanto, o livro não continha qualquer referência a seu nome, o que lhe causou uma mágoa que carregaria até o fim de seus dias. Apesar de ter reclamado esta deferência, Newton ignorou seus protestos e em nenhuma de suas obras faz qualquer alusão às contribuições do cientista.

Em 1682 Hooke abandonou a Secretaria da Royal Society, mas continuou a enviar contribuições à entidade, pesquisando todos os campos da ciência, desde a natureza da memória até estudos sobre fósseis. Em 1687, com a morte de sua sobrinha - pessoa de sua maior estima e que lhe era muito dedicada - Robert Hooke teve sua saúde abalada. Definhando, faleceu em 3 de março de 1703. Ao seu funeral compareceram todos os sócios da Royal Society, em reconhecimento do seu mérito como cientista.

 

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